Educação

Aos 6 anos, Dr. Davi leva ao Rio de Janeiro um alerta sobre inclusão de crianças superdotadas

Menino com altas habilidades apresentou seminário sobre um tema que faz parte da própria realidade e defendeu mais orientação para famílias, professores e escolas.; veja vídeo.

Com apenas 6 anos, Davi Milhomem Giordani, conhecido como Dr. Davi, chamou a atenção ao apresentar um seminário sobre altas habilidades e superdotação no Rio de Janeiro. Mais do que falar sobre um tema estudado, o menino compartilhou uma realidade que faz parte da sua própria vida e colocou em evidência uma discussão ainda pouco compreendida por grande parte da sociedade: como identificar, acolher e estimular crianças com altas habilidades sem deixar de respeitar a infância.

Na apresentação, Davi defendeu uma ideia fundamental: inclusão não significa fazer todas as crianças seguirem o mesmo caminho, mas oferecer a cada uma as condições necessárias para desenvolver suas potencialidades.

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A mensagem também foi reforçada em uma publicação na conta do menino: “Uma criança com altas habilidades precisa ser enxergada, compreendida e estimulada — sem deixar de ser criança. Famílias precisam de orientação. Professores precisam de apoio. Escolas precisam de ferramentas. E crianças precisam de oportunidades.”

A reflexão ganha ainda mais relevância diante dos números da educação brasileira.

Mais de 44 mil matrículas identificadas no Brasil

Dados do Censo Escolar mostram que o Brasil registrou 44.171 matrículas de estudantes com altas habilidades ou superdotação em 2024, número superior às 38.019 registradas em 2023. Em 2020, eram 24.424 matrículas. (Legislação do Senado)

O crescimento das identificações é significativo, mas os números precisam ser interpretados com cautela: eles representam estudantes identificados e registrados pelas redes de ensino, e não necessariamente o total de crianças brasileiras que possuem altas habilidades ou superdotação.

O próprio Ministério da Educação reconhece as altas habilidades ou superdotação como parte do público da educação especial. Segundo o Inep, trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento que pode envolver potencial intelectual elevado, intensa curiosidade, elevada capacidade de aprendizagem e profundo envolvimento com temas de interesse, podendo também estar associada à alta sensibilidade e intensidade emocional. (Serviços e Informações do Brasil)

Isso significa que uma criança com grande capacidade de aprendizagem não deve ser vista apenas como alguém que “aprende mais rápido”. Suas necessidades educacionais podem ser diferentes e exigem estratégias adequadas de acompanhamento e enriquecimento.

A importância de identificar — mas também oferecer condições

A fala de Davi toca justamente em um dos principais desafios da educação inclusiva: identificar é apenas o primeiro passo.

O Censo Escolar aponta que, considerando o conjunto de estudantes de 4 a 17 anos que integram o público da educação especial — grupo que inclui pessoas com deficiência, transtornos do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação —, o percentual de matrículas em classes comuns chegou a 95,7% em 2024. No mesmo período, a proporção daqueles que estavam em classes comuns e também tinham acesso ao Atendimento Educacional Especializado (AEE) chegou a 42,6%. (Inep)

A inclusão, portanto, não se resume à presença física do estudante em uma sala de aula regular. É necessário garantir recursos, estratégias pedagógicas, profissionais preparados e condições para que aquele aluno realmente aprenda e desenvolva suas habilidades.

É exatamente nesse ponto que a mensagem de Dr. Davi ganha força: não basta reconhecer o potencial de uma criança se não houver oportunidade para que ele seja desenvolvido.

Brasil passa a ter política nacional específica para altas habilidades

A discussão também acontece em um momento importante para a educação brasileira. Em junho de 2026, entrou em vigor a Lei nº 15.436/2026, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação e criou o Cadastro Nacional desses estudantes. (Portal da Câmara dos Deputados)

A legislação estabelece como objetivos a identificação precoce, o atendimento educacional especializado, o desenvolvimento integral e a inclusão plena dos estudantes com altas habilidades ou superdotação. A lei também determina que os sistemas de ensino assegurem Atendimento Educacional Especializado adequado às necessidades desses alunos. (Portal da Câmara dos Deputados)

Outro ponto previsto é a possibilidade de progressão educacional desses estudantes, conforme as regras da legislação educacional e dos respectivos sistemas de ensino. A política também contempla crianças e jovens que apresentem a chamada dupla excepcionalidade, quando as altas habilidades coexistem com outra condição que gere dificuldades significativas em alguma área. (Portal da Câmara dos Deputados)

“Sem deixar de ser criança”

A mensagem de Dr. Davi também chama atenção para uma dimensão que vai além do desempenho acadêmico.

Uma criança superdotada continua sendo criança. Precisa brincar, conviver, desenvolver habilidades sociais, receber afeto, ter tempo de descanso e ser respeitada em suas diferentes fases de desenvolvimento. O alto potencial não elimina as necessidades próprias da infância.

Por isso, a defesa apresentada pelo menino no Rio de Janeiro ultrapassa a discussão sobre notas, inteligência ou desempenho escolar. Ela coloca em pauta a responsabilidade coletiva de construir ambientes em que crianças com altas habilidades possam desenvolver seus talentos sem serem pressionadas a corresponder permanentemente às expectativas dos adultos.

Os dados oficiais mostram que o Brasil avançou na identificação desses estudantes: foram 24.424 matrículas em 2020 e 44.171 em 2024, um crescimento de aproximadamente 81% em quatro anos. (Legislação do Senado)

Ainda assim, o desafio permanece: fazer com que cada identificação se transforme em atendimento, acompanhamento e oportunidade.

E é justamente aí que a frase de Dr. Davi resume uma questão que interessa a toda a sociedade: “Potencial existe em todo lugar. O que não pode depender da sorte é a oportunidade de desenvolvê-lo.”