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Laura Cardoso e Glória Menezes: duas damas que ajudaram a escrever a história da dramaturgia brasileira

Atrizes morreram com poucas horas de diferença e deixam um legado construído ao longo de mais de seis décadas de arte, dedicação e resistência.

A dramaturgia brasileira se despede de duas de suas maiores referências. Laura Cardoso, aos 98 anos, morreu na noite de segunda-feira (17), em sua casa, em São Paulo, por causas naturais. Na terça-feira (18), foi a vez de Glória Menezes, aos 91 anos, morrer em seu apartamento, no Rio de Janeiro, também por causas naturais, segundo informações divulgadas sobre a morte da atriz. As duas partidas, com poucas horas de diferença, representam a despedida de uma geração que ajudou a construir, consolidar e transformar o teatro, o cinema e a televisão no Brasil. (AJN1 – Portal de Noticias)

Mais do que duas estrelas da televisão, Laura e Glória foram mulheres que atravessaram décadas de transformações sociais e culturais sem abrir mão do ofício. Foram protagonistas, coadjuvantes, vilãs, mães, avós, mulheres fortes, frágeis, populares e sofisticadas. Em comum, carregaram o compromisso com a arte e a capacidade de transformar cada personagem em uma experiência que permanecia na memória do público.

A história das duas também se confunde com a própria evolução da televisão brasileira. Em uma época em que a profissão de atriz ainda enfrentava preconceitos e não gozava do reconhecimento que possui atualmente, elas escolheram a arte, enfrentaram barreiras e ajudaram a abrir caminho para gerações que vieram depois.

Laura Cardoso: oito décadas diante das câmeras e nos palcos

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, Laura começou muito cedo. Aos 15 anos, ingressou no rádio e, posteriormente, tornou-se uma das pioneiras da televisão brasileira. Sua trajetória atravessou o nascimento da TV no país e passou por diferentes emissoras, pelo teatro e pelo cinema.

Ao longo de mais de oito décadas de carreira, Laura acumulou mais de 100 trabalhos, incluindo cerca de 65 novelas, além de séries, teleteatros, filmes e peças. Também participou de aproximadamente 30 longas-metragens. (VEJA)

Sua história na televisão começou ainda nos primeiros anos do veículo, quando participou de teleteatros da TV Tupi. Décadas depois, já consagrada, chegou à Globo e construiu uma extensa lista de personagens que atravessaram gerações.

Entre seus trabalhos mais lembrados estão “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Fera Radical”, “Chocolate com Pimenta”, “Caminho das Índias”, “Gabriela”, “Sol Nascente” e “A Dona do Pedaço”. Em cada uma dessas produções, Laura demonstrava a mesma característica que colegas de profissão admiravam: a capacidade de tratar o trabalho com rigor, independentemente do tamanho do papel.

Sua última novela foi “A Dona do Pedaço”, em 2019. Mas, para Laura, a palavra aposentadoria parecia não combinar com seu vocabulário. Em 2025, ela protagonizou o curta-metragem “Dona Rosinha”, mantendo-se ligada à arte até os últimos anos de vida. (UOL)

a carreira de Laura começou aos 15 anos, como atriz de radionovela, na rádio Cosmos.

A atriz também recebeu algumas das mais importantes homenagens destinadas a artistas brasileiros. Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural. Em 2025, recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, reconhecimento à trajetória construída ao longo de décadas. Naquele mesmo período, participou ainda de gravações da mensagem de fim de ano da emissora. (Folha de S.Paulo)

O carinho dos colegas dizia muito sobre o tamanho de sua importância. Ao encontrar Laura em 2025, Susana Vieira a chamou de “mestra” e “professora”, destacando a dimensão de sua influência sobre outras gerações de atores. (gshow)

Glória Menezes/ arquivo Globo

Glória Menezes: pioneirismo, protagonismo e uma carreira de mais de seis décadas

Glória Menezes, nascida Nilcedes Soares de Magalhães, em Pelotas (RS), também começou sua trajetória no teatro antes de conquistar espaço na televisão e no cinema.

Sua carreira profissional atravessou mais de seis décadas, período em que se tornou uma das primeiras grandes estrelas da teledramaturgia brasileira. Glória participou de mais de 40 telenovelas na TV Globo, além de séries, minisséries, programas, filmes e peças de teatro. (memoriaglobo)

Um dos capítulos mais importantes de sua trajetória aconteceu em 1963, quando protagonizou, ao lado de Tarcísio Meira, “2-5499 Ocupado”, considerada a primeira telenovela diária da televisão brasileira. A parceria artística com Tarcísio também se transformaria em uma das histórias de amor mais conhecidas do meio artístico. Os dois foram casados por 59 anos, até a morte do ator, em 2021. (UOL)

Na Globo, onde estreou em 1967 com “Sangue e Areia”, Glória construiu uma galeria de personagens que marcou diferentes épocas da televisão.

Vieram “Irmãos Coragem”, “Pai Herói”, “Guerra dos Sexos”, “Brega & Chique”, “Rainha da Sucata”, “Deus nos Acuda”, “A Próxima Vítima”, “Torre de Babel”, “O Beijo do Vampiro”, “Senhora do Destino” e “A Favorita”**, entre tantos outros trabalhos. Em “Irmãos Coragem”, chegou a interpretar três personagens diferentes, demonstrando a versatilidade que se tornaria uma de suas marcas. (UOL)

Seu último papel em novelas foi Stelinha, em “Totalmente Demais”, exibida entre 2015 e 2016. Depois disso, ainda fez participações na televisão, incluindo uma aparição no humorístico “Tá no Ar: a TV na TV”, em 2018. (UOL)

Glória Menezes e Tarcísio Meira quando começaram a se relacionar.

Poucos dias antes de morrer, Glória recebeu uma das últimas grandes homenagens à sua trajetória. Em 12 de agosto de 2026, ganhou uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, ao lado de uma homenagem póstuma a Tarcísio Meira. Por motivos de saúde, não pôde comparecer à cerimônia e foi representada pelo filho, Tarcísio Filho. (F5 Folha)

Duas trajetórias diferentes, a mesma grandeza

Laura Cardoso e Glória Menezes seguiram caminhos próprios, construíram personagens diferentes e tiveram estilos distintos de interpretação. Mas há entre elas uma semelhança impossível de ignorar: ambas fizeram da profissão um compromisso de vida.

Glória Menezes

Laura atravessou mais de oito décadas de atividade artística. Glória, mais de seis. As duas começaram em um Brasil em que a televisão ainda dava seus primeiros passos e permaneceram relevantes enquanto o meio se transformava diante de seus olhos.

Foram testemunhas e protagonistas de uma revolução cultural. Viram o rádio perder espaço para a televisão, acompanharam a chegada da televisão em cores, a consolidação das grandes novelas, a transformação da linguagem audiovisual e o surgimento de novas gerações de artistas.

E permaneceram.

Permaneceram porque talento não envelhece. Porque experiência não perde valor. Porque uma grande atriz pode interpretar uma personagem aos 30, aos 50, aos 70 ou aos 90 anos e continuar encontrando novas maneiras de emocionar.

É justamente por isso que as despedidas de Laura e Glória representam algo maior do que a perda de duas atrizes consagradas. É o encerramento simbólico de um dos capítulos mais importantes da história da dramaturgia brasileira.

Um legado que ultrapassa a televisão

Laura Cardoso e Glória Menezes também deixam uma mensagem sobre a força das mulheres que escolheram a arte em um período em que seguir uma carreira artística ainda significava enfrentar julgamentos, preconceitos e limitações impostas pela sociedade.

Elas não apenas sobreviveram a essas barreiras. Elas as atravessaram e ajudaram a derrubá-las.

Ao longo de suas carreiras, provaram que uma mulher poderia ocupar o centro do palco, liderar uma produção, protagonizar histórias, interpretar personagens complexas e conquistar o respeito de colegas, diretores, autores e milhões de espectadores.

Hoje, quando atrizes de diferentes gerações ocupam espaços de destaque no teatro, no cinema e na televisão, existe também um pouco de Laura e de Glória nesse caminho.

As duas ajudaram a construir uma profissão mais respeitada e uma dramaturgia mais rica. Ensinaram, pelo exemplo, que excelência não depende de idade, que experiência é patrimônio e que o artista verdadeiro nunca deixa de aprender.

Screenshot

A morte de Laura Cardoso e Glória Menezes deixa saudade, mas também deixa uma certeza: há artistas que não partem completamente porque continuam existindo nos personagens, nas cenas, nas histórias e nas memórias de quem os assistiu.

Laura deixa mais de 100 trabalhos e oito décadas de dedicação à arte. Glória deixa mais de 60 anos de uma carreira marcada por protagonismo, versatilidade e pioneirismo.

Duas mulheres. Duas histórias. Duas trajetórias extraordinárias.

E um único legado: o de terem ajudado a escrever, com talento, coragem e compromisso, a história da dramaturgia brasileira.