Projeto em Salvador propõe atendimento integral para mulheres com endometriose e reforça urgência de diagnóstico precoce
Proposta prevê acolhimento nas unidades básicas, capacitação de profissionais e encaminhamento prioritário para reduzir sofrimento silencioso de milhares de mulheres baianas
Um projeto de lei apresentado na Câmara Municipal de Salvador quer transformar a forma como mulheres com endometriose são atendidas na rede pública municipal de saúde. A proposta cria o Programa Municipal de Atenção Integral à Endometriose, com foco no diagnóstico precoce, acolhimento humanizado e acompanhamento especializado desde as primeiras suspeitas da doença.
De autoria do vereador Helio Ferreira, o texto prevê que o atendimento aconteça principalmente nas Unidades de Saúde da Família e UBSs do município, fortalecendo a atenção básica como porta de entrada para mulheres que convivem diariamente com dores intensas, sangramentos, infertilidade e outros sintomas frequentemente ignorados ou tratados como “normais”.
Entre as medidas propostas estão triagem qualificada, orientação sobre sintomas como cólicas incapacitantes, dor pélvica crônica e dor durante relações sexuais, além da criação de protocolos clínicos que acelerem exames e encaminhamentos para especialistas. O projeto também prevê campanhas de conscientização e capacitação de profissionais da saúde para identificação precoce da doença.
A proposta surge em um momento considerado urgente por especialistas e pacientes. Dados do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde indicam que a endometriose afeta cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva.
Na Bahia, embora não existam números oficiais consolidados sobre quantas mulheres convivem com a doença, a estimativa baseada nos índices nacionais aponta que centenas de milhares de baianas possam sofrer com a endometriose — muitas sem sequer saberem que têm a condição. Considerando que a Bahia possui milhões de mulheres em idade fértil, especialistas alertam para um cenário de subdiagnóstico e demora no acesso ao tratamento.
O próprio Hospital da Mulher, referência estadual em casos de alta complexidade em Salvador, informou ter realizado cerca de três mil atendimentos relacionados à endometriose apenas em 2025.
Especialistas alertam que muitas pacientes passam anos convivendo com dores incapacitantes antes de receber um diagnóstico correto. Em diversos casos, os sintomas são confundidos com desconfortos menstruais comuns, atrasando o início do tratamento e agravando a doença.
Além das dores intensas, a endometriose pode provocar infertilidade, problemas intestinais e urinários, fadiga extrema e impactos emocionais severos, afetando diretamente a qualidade de vida, o trabalho, os estudos e a saúde mental das pacientes.
A expectativa é que o programa possa diminuir o tempo de espera por diagnóstico, ampliar o acesso aos exames especializados e evitar que mulheres só descubram a doença em estágios avançados. Estudos nacionais apontam que a endometriose continua amplamente subdiagnosticada no Brasil, mesmo diante do crescimento da procura por atendimento no SUS.
O projeto também autoriza parcerias com universidades, instituições públicas e entidades médicas, fortalecendo pesquisas, campanhas educativas e ações preventivas voltadas à saúde da mulher.
Para defensoras da pauta, a aprovação rápida da proposta representa não apenas um avanço na saúde pública, mas também um reconhecimento do sofrimento silencioso vivido por milhares de mulheres que, durante anos, têm suas dores minimizadas.
A iniciativa ganha ainda mais relevância diante do aumento dos atendimentos relacionados à doença no SUS. Dados do Ministério da Saúde mostram crescimento expressivo nos atendimentos e internações por endometriose nos últimos anos, evidenciando a necessidade de políticas públicas permanentes e estruturadas para enfrentar o problema.

