Paternidade também transforma o cérebro: estudos mostram efeitos da chegada de um filho nos homens
Neuroplasticidade, alterações hormonais e maior envolvimento no cuidado ajudam a explicar como a experiência de ser pai modifica o cérebro masculino
A chegada de um filho não transforma apenas a rotina de uma família. Para os homens, a experiência da paternidade também pode provocar mudanças no cérebro, no funcionamento hormonal e na maneira de responder às necessidades da criança. Estudos na área da neurociência apontam que essas alterações estão relacionadas à neuroplasticidade — capacidade que o cérebro tem de se adaptar às novas experiências e demandas do ambiente.
Embora as transformações neurológicas associadas à maternidade sejam mais conhecidas, pesquisas realizadas nos últimos anos mostram que o cérebro paterno também se adapta à chegada do bebê. Um estudo publicado na revista científica Cerebral Cortex, em 2023, acompanhou pais de primeira viagem antes e depois do nascimento dos filhos e identificou mudanças no volume de áreas do córtex cerebral.
A pesquisa reuniu dados de dois grupos internacionais e encontrou reduções de volume em regiões associadas, principalmente, às redes cerebrais de modo padrão e visual.
O resultado pode parecer contraditório, mas uma redução de volume em determinadas regiões não significa necessariamente perda de capacidade cerebral. Segundo os pesquisadores, as alterações são compatíveis com processos de neuroplasticidade, ou seja, adaptações estruturais que podem ocorrer quando uma pessoa passa por uma experiência importante e assume novas demandas cognitivas, emocionais e comportamentais.
Hormônios e vínculo também entram em cena
A transformação não ocorre somente na estrutura cerebral. Uma revisão científica publicada em 2022, que analisou 29 estudos sobre os correlatos neurobiológicos da paternidade, encontrou evidências de alterações envolvendo hormônios como testosterona, oxitocina, prolactina e cortisol, além de mudanças na atividade de redes cerebrais relacionadas à empatia, processamento emocional, regulação das emoções, atenção e motivação para a aproximação com o bebê. Os autores, porém, ressaltam que a área ainda necessita de mais pesquisas.
Outro estudo, que acompanhou 73 pais de primeira viagem, identificou redução significativa nos níveis de testosterona e de vasopressina durante a transição para a paternidade. O cortisol também apresentou uma redução marginal. A pesquisa ainda avaliou 152 homens para investigar a relação entre hormônios e comportamento parental.
Os efeitos parecem estar relacionados também ao grau de envolvimento do pai. Em uma pesquisa mais recente publicada na Cerebral Cortex, homens que relataram maior motivação para exercer a paternidade, maior vínculo com os filhos e mais tempo de convivência com o bebê apresentaram maiores reduções de volume de substância cinzenta em determinadas regiões cerebrais.
Presença paterna vai além da figura biológica
As mudanças no cérebro ajudam a explicar parte do processo, mas a importância da paternidade não pode ser reduzida à biologia. Para a psicóloga Bianca Reis, a presença de uma figura cuidadora está diretamente relacionada às experiências emocionais e sociais construídas durante a infância.

“Ao trabalhar com meus pacientes adultos as necessidades emocionais básicas da infância, encontramos faltas e feridas que estão relacionadas a violências da educação parental, mas também a ausências em momentos tanto ordinários como especiais”, afirma Bianca.
Segundo a psicóloga, a figura paterna pode exercer um papel importante na socialização e na construção do sentimento de pertencimento da criança.
“Podemos ver esta figura como ponte para o mundo externo e agente ativo na socialização da criança, assim como na identificação e na noção de pertencimento dela no mundo. A ausência, sem que alguém ocupe esta função, independentemente de quem seja, pode gerar insegurança afetiva e dificuldades na adaptação social do indivíduo, além de se perder a oportunidade de evoluir na relação com este filho”, explica.
Bianca também ressalta que o desenvolvimento infantil não depende da composição específica da família. “Não há nenhum problema de uma criança ser criada por duas mães ou dois pais. O desenvolvimento emocional, social e cognitivo se encontra preservado em uma configuração familiar como as citadas, pois a qualidade do vínculo, o afeto, o desejo e as funções de cuidado, limites, disciplina e amor podem ser exercidas por qualquer gênero”, acrescenta.
Envolvimento do pai está associado ao desenvolvimento dos filhos
A ciência também tem investigado os efeitos da participação paterna no desenvolvimento infantil. Uma revisão sistemática de estudos longitudinais encontrou associação entre o envolvimento ativo dos pais e diferentes resultados positivos para as crianças, incluindo aspectos do desenvolvimento cognitivo e redução de problemas comportamentais. Dos 24 trabalhos analisados, 22 identificaram efeitos positivos relacionados ao envolvimento paterno.
A Academia Americana de Pediatria também destaca que a participação do pai na comunicação, nas brincadeiras e nos cuidados durante a primeira infância está associada a resultados positivos no desenvolvimento psicológico e comportamental. Um dos estudos citados pela entidade encontrou relação entre a comunicação entre pai e criança aos três anos e avanços no desenvolvimento da linguagem.
Mais recentemente, uma revisão publicada em 2025 na Annual Review of Developmental Psychology reuniu evidências sobre a contribuição das relações entre pais e filhos para o desenvolvimento durante a primeira infância, reforçando a importância da qualidade da interação, do vínculo e da participação paterna.
Nesse sentido, falar sobre paternidade também significa discutir masculinidades e a divisão dos cuidados dentro da família. Para Bianca Reis, a experiência de cuidar pode contribuir para uma relação mais saudável dos homens com os próprios sentimentos e com aqueles que estão ao seu redor.
“Diante destes dados, o lugar da paternidade pode ser visto não apenas como algo interessante e protetivo para a relação familiar e de formação dos filhos, mas como uma maneira de ampliarmos as discussões sobre masculinidades e a possibilidade mais saudável e menos violenta deste homem existir em sociedade”, conclui a psicóloga.
Mais do que uma mudança no cérebro, a paternidade representa, portanto, uma experiência de adaptação. Cuidar, estabelecer vínculo, brincar, conversar, proteger e participar da rotina da criança não são apenas atitudes que fortalecem a relação entre pai e filho. São experiências capazes de mobilizar processos biológicos e psicológicos que acompanham a construção dessa nova identidade.
Sobre Bianca Reis
Psicóloga CRP 03/11.152, psicoterapeuta, palestrante e facilitadora de grupos, Bianca Reis é mestra em Família, especialista em Psicoterapia Junguiana, pós-graduada em Estimulação Precoce e pós-graduanda em Neuropsicologia: Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica e em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem. É formada em Terapia do Esquema e atua há mais de 12 anos na área clínica, com demandas relacionadas a relacionamentos familiares e românticos, sexualidade, gênero, infância, ansiedade, depressão e outras questões psicológicas e humanas.

