EntretenimentoPolítica

Mudança do Garcia mantém tradição de resistência e transforma folia em palco de luta social

Manifestação histórica do Carnaval de Salvador reúne críticas políticas, memória popular e protestos como o movimento “Devolvam o Nosso Planserv”.

O que muitos chamam de “creme” do Carnaval de Salvador vai muito além da folia. A tradicional Mudança do Garcia, realizada nesta segunda-feira (16), reafirmou seu papel histórico como uma das manifestações mais autênticas e politizadas da festa. Entre fanfarras, fantasias criativas e cartazes bem-humorados, o cortejo voltou a ocupar as ruas do bairro do Garcia como espaço de celebração, memória e reivindicação social.

Criada na década de 1920 por moradores da comunidade, a Mudança nasceu da vontade popular de brincar o Carnaval sem abrir mão do direito de protestar. Desde então, atravessa gerações mantendo viva a essência democrática do bloco: não há cordas separando o povo, não há barreiras entre artistas e foliões. O trio avança lentamente, como um palco móvel, enquanto a população ocupa as ruas com liberdade e consciência política.

Neste ano, dois mini trios elétricos deram suporte sonoro ao desfile, sem descaracterizar sua identidade original. O vice-governador Geraldo Júnior acompanhou a saída do bloco e destacou a importância de manter a tradição viva. “A Mudança do Garcia é resistência e luta. É a força do nosso povo”, afirmou.

Para muitos, a manifestação é também um espaço seguro de expressão política. “Eu vinha menina com minha avó. Para mim é o ‘creme’ do Carnaval da Bahia. Aqui a gente pode abrir a boca sem repressão”, disse Silvaninha Silva, frequentadora desde a infância.

Planserv vira pauta central no cortejo

Entre as bandeiras erguidas este ano, ganhou destaque o movimento “Devolvam o Nosso Planserv”, formado por servidores estaduais que denunciam o sucateamento do plano de saúde dos funcionários públicos da Bahia.

O grupo cobra melhorias no atendimento, critica o descredenciamento de clínicas e hospitais, relata dificuldades na marcação de consultas e exames e aponta baixa remuneração médica como fator que tem reduzido o número de especialistas disponíveis — especialmente em áreas sensíveis como o atendimento aos autistas.

O governo estadual aprovou uma reestruturação financeira do plano, prevendo aumento gradual da contribuição patronal (até 4% em 2027) e dos servidores (5,5% em 2026 e 6% em 2027). Também foram anunciadas medidas como ampliação de leitos, novos prontos atendimentos, expansão da telemedicina e programas voltados para idosos e pessoas com transtorno do espectro autista.

No entanto, sindicatos e beneficiários consideram as mudanças insuficientes e criticam o aumento das contribuições sem garantia imediata de melhoria na rede credenciada.

“O plano é custeado pelos trabalhadores e precisa oferecer atendimento digno e de qualidade. O movimento não vai recuar”, reforçam representantes do grupo, que prometem continuar pressionando por transparência e sustentabilidade na gestão.

Carnaval como espelho da sociedade

Diferente dos grandes circuitos comerciais, a Mudança do Garcia mantém o espírito do carnaval de rua: marchinhas, máscaras, bonecos gigantes e cartazes com sátiras que viralizam pelo país. A cada ano, novas pautas surgem, refletindo o momento político e social vivido pela população.

Mais do que festa, o bloco reafirma que o Carnaval de Salvador também é instrumento de cidadania. No Garcia, a alegria caminha lado a lado com a crítica — e a folia se transforma em voz coletiva.