Megaoperação no Rio deixa 132 mortos e 17 baianos entre os alvos do Comando Vermelho
Batizada de “Operação Contenção”, ação mobilizou 2,5 mil agentes nos complexos do Alemão e da Penha; 16 baianos foram presos e dois morreram em confronto.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro atualizou para 132 o número total de mortos durante a megaoperação realizada na última terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha, na zona Norte da capital fluminense. Batizada de Operação Contenção, a ação teve como objetivo frear o avanço territorial do Comando Vermelho (CV) e cumprir cerca de 100 mandados de prisão contra suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas.
Entre os alvos, 17 eram baianos. Desses, 16 foram presos e dois tiveram as mortes confirmadas. A operação mobilizou cerca de 2.500 agentes das Polícias Civil e Militar e foi classificada pelo governo estadual como “o maior baque da história contra o Comando Vermelho”.
Segundo o secretário da Polícia Militar do Rio, coronel Marcelo de Menezes, o confronto teve início por volta das 6h da manhã e se estendeu até as 21h, somando cerca de 15 horas de operação.
Confrontos e vítimas
Além dos suspeitos, quatro policiais — dois civis e dois militares — morreram em combate. O secretário da Polícia Civil, Felipe Curi, afirmou que todos os mortos, com exceção dos agentes, eram “narcoterroristas”, integrantes da facção criminosa.
Ele também informou que será aberta investigação por fraude processual contra pessoas que retiraram corpos da mata, supostamente alterando a cena do crime. Segundo a polícia, moradores teriam removido roupas camufladas e pertences dos mortos, dificultando o trabalho pericial.
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) anunciou o envio de técnicos ao Instituto Médico-Legal (IML) para realizar uma perícia independente nos corpos e apurar as circunstâncias das mortes.

Dor e questionamentos
Na manhã de quarta-feira (29), imagens de dezenas de corpos enfileirados na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, chocaram o país e o mundo. Familiares, em sua maioria mulheres, se reuniram ao redor das vítimas e questionaram a forma como o Estado conduz as operações nas favelas.
Entre elas estava Elieci Santana, 58 anos, mãe de Fábio Francisco Santana, de 36 anos, que relatou ter recebido uma mensagem do filho dizendo que se entregaria.
“Meu filho se entregou, saiu algemado. E arrancaram o braço dele no lugar da algema”, disse, emocionada.
A mãe de Tauã Brito, de 20 anos, também morto na operação, expressou solidariedade às famílias dos policiais, mas cobrou mais oportunidades e políticas públicas.
“Eu não aprovo o que meu filho fez, mas não podia abandoná-lo. Eu sou mãe. Governar é mais do que entrar em favela e tirar vidas. É dar oportunidade, visão e esperança — e isso o governador não faz”, afirmou.
Enterro e solidariedade
Os policiais mortos na operação foram sepultados com honras militares no Cemitério do Caju, no Rio, na tarde de quarta-feira (29). Durante o velório, o secretário Marcelo de Menezes prestou solidariedade às famílias e destacou o sacrifício dos agentes em defesa da sociedade.
“Esses heróis tombaram cumprindo o dever de proteger a população. O Estado não se curvará diante do crime organizado”, declarou.
Divergências e contrapontos
A Operação Contenção reacendeu o debate sobre segurança pública e direitos humanos no Rio de Janeiro. Enquanto organizações civis denunciam excessos e falta de políticas sociais, parte da população e representantes políticos saíram em defesa da ação policial, argumentando que os agentes enfrentaram criminosos fortemente armados e camuflados na mata.
Segundo relatos de moradores favoráveis à operação, os criminosos atiravam de posições elevadas, do alto dos morros, contra os policiais que transitavam nas partes mais baixas das comunidades, em clara situação de emboscada.
Parlamentares e autoridades de segurança também afirmaram que a operação evitou uma expansão do Comando Vermelho para outras regiões do estado e que o enfrentamento direto foi inevitável diante do poder de fogo dos traficantes.
O governo do estado reforçou que a ação teve como foco o combate ao crime organizado e que não há política de confronto deliberado, mas de retomada de territórios dominados por facções.
“Não se trata de uma guerra contra a população pobre, mas de uma resposta firme contra o narcotráfico que aterroriza comunidades inteiras”, afirmou um dos porta-vozes da Polícia Militar.
Contexto: a força do Comando Vermelho
Fundado no final da década de 1970 dentro do presídio da Ilha Grande, o Comando Vermelho (CV) surgiu como uma aliança entre criminosos comuns e presos políticos durante a ditadura militar. O grupo expandiu sua atuação para o tráfico de drogas, consolidando-se como uma das facções mais poderosas e violentas do Brasil.
Atualmente, o CV domina territórios estratégicos no Rio de Janeiro, com ramificações em outros estados, entre eles Bahia, Pará e Amazonas, além de manter alianças com grupos criminosos internacionais ligados ao tráfico de armas e drogas.
Segundo especialistas em segurança pública, a facção vem recrutando jovens de comunidades carentes e transferindo lideranças para outros estados, em busca de novos pontos de distribuição de drogas e rotas logísticas. Esse processo explica a presença de baianos entre os alvos da Operação Contenção, reforçando o alcance nacional da facção.
Com a escalada da violência e o aumento das operações policiais de grande porte, cresce também o debate sobre a eficácia do confronto armado e a necessidade de políticas públicas que atuem na raiz do problema, oferecendo educação, emprego e acesso a serviços básicos nas comunidades dominadas pelo tráfico.
A Operação Contenção, embora vista por alguns como um marco no combate ao crime organizado, expõe mais uma vez a complexa realidade da segurança pública no Rio de Janeiro, onde o limite entre o enfrentamento e a tragédia social continua sendo desafiado a cada nova ação do Estado.

