INÊZ OU SEBASTIANA? NÃO IMPORTA O NOME DA GUERREIRA
In Memorian a uma vida de fé, coragem e serviço nos aos 104 anos de Inêz Diamantino Oliveira.
Por João Bosco de Oliveira Seixas

No dia vinte do mês de janeiro de 1920 do calendário gregoriano, nascia, em Juazeiro da Bahia, Inêz Diamantino de Oliveira. Se ainda estivesse entre nós, atravessando a fase do mundo material, estaria hoje completando cento e quatro anos de vida.

Conta-se que seus pais cogitaram batizá-la com o nome de Sebastiana, em homenagem a São Sebastião, santo celebrado neste mesmo dia pela Igreja Católica. A escolha seria simbólica e bastante apropriada. Conforme registros históricos e religiosos, São Sebastião foi um soldado dotado de vigor físico, equilíbrio mental e fortaleza espiritual — atributos que Inêz carregou por toda a sua existência.
Mulher aguerrida, de personalidade marcante, era igualmente dona de um coração generoso e acolhedor. É fácil imaginar que tenha enfrentado tempestades intensas ao longo da vida, mas nenhuma delas foi capaz de abatê-la. Ao contrário, serviram-lhe de estímulo para seguir adiante, sustentada por uma fé inabalável em Deus, que a acompanhou até o seu derradeiro momento existencial.
Filha de uma família humilde, formada por um casal e mais dezessete filhos, viveu uma infância marcada por privações, mas também por dignidade e firmeza de caráter. Sob a orientação do pai, José Lino de Oliveira — homem de pulso forte, sábio e orientador —, aprendeu desde cedo a enfrentar as vicissitudes da vida com a cabeça erguida.
Formou-se professora e passou a dedicar-se ao ensino, ministrando aulas que, na linguagem atual, equivaleriam ao reforço escolar. Posteriormente, aprovada em processo seletivo estadual, foi designada para lecionar em Pilão Arcado, localidade que descrevia como um verdadeiro “fim de mundo”, dadas as dificuldades geográficas e estruturais típicas do interior profundo da Bahia. Ainda assim, sua fé e resiliência falaram mais alto, impulsionando-a na busca por dias melhores.
No final da década de 1940, chegou à cidade de Catu, removida para lecionar e, simultaneamente, fazer companhia ao irmão, o Cônego Diamantino, então pároco local. Foi em Catu que consolidou grande parte de sua história de vida.


Casou-se com Antônio de Deus Seixas, com quem construiu uma família e teve três filhos. A luta diária se intensificou diante das múltiplas responsabilidades: esposa, mãe, professora e cristã convicta, que vivia na prática aquilo que professava na fé, colaborando ativamente na conservação do templo dedicado à padroeira da cidade.
Enfrentou períodos de grande dificuldade financeira, nos quais testemunhou, segundo sua própria vivência, verdadeiros milagres de multiplicação. Com esforço, perseverança e fé, conseguiu formar seus três filhos e, ainda assim, manter aberta a porta de sua casa para ajudar os mais necessitados que a procuravam.

Mulher prendada, possuía habilidades culinárias e artesanais admiráveis. Destacava-se também como intercessora incansável, organizando e conduzindo novenas que buscavam aliviar as angústias daqueles que atravessavam momentos de provação.
Mesmo após a aposentadoria e com os filhos já independentes, não se entregou ao ócio. Seguiu ativa na vida comunitária e passou a ensinar crochê, tricô, ponto cruz e outras técnicas artesanais às mulheres humildes da comunidade, compartilhando saberes e fortalecendo laços de solidariedade.
Propositadamente, não destaco neste escrito os êxitos profissionais ou familiares em termos materiais. O sentimento que hoje me move é o de compartilhar o perfil de uma mulher que soube ser filha, irmã, esposa e mãe dedicada; lutadora incansável; caridosa; generosa no compartilhar de suas habilidades — em total oposição ao egoísmo — e que, até os dias atuais, representa uma lacuna imensa na vida deste que escreve, que não teve, à época, a maturidade necessária para compreender, em toda a sua extensão, o verdadeiro valor da preciosíssima joia que Deus lhe concedeu como mãe.

Neste aniversário de cento e quatro anos de minha mãe, registro minhas saudades eternas, meu respeito profundo e o reconhecimento sincero de que foste a melhor e mais completa mãe que eu poderia ter.
Deus contigo sempre.
João Bosco de Oliveira Seixas

Quem foi Inêz Diamantino de Oliveira para a comunidade de Catu
Em Catu, a professora Inêz Diamantino de Oliveira construiu um legado que ultrapassou os limites da sala de aula. Católica fervorosa, profundamente comprometida com a fé e com a vida comunitária, foi catequista e uma mulher amplamente reconhecida e amada por seus serviços sociais, pela dedicação à Igreja e pelo cuidado com os mais humildes. Atuava de forma silenciosa, mas constante, ajudando famílias, orientando mulheres e fortalecendo vínculos comunitários.
Suas habilidades com bordados, artes manuais e trabalhos delicados encantavam a todos que tinham o privilégio de conhecer suas criações, verdadeiras expressões de carinho e paciência. Mais do que professora, Inêz foi educadora da vida, exemplo de fé, serviço e amor ao próximo — uma catuense cuja memória permanece viva no coração da cidade e de todos que foram tocados por sua história.


