Comportamento

Violência contra a mulher dispara no Brasil e já é tratada como epidemia social

Crescem os casos de feminicídio, agressões e estupros; especialistas alertam para risco de colapso social e democrático



A violência contra a mulher no Brasil continua em trajetória de crescimento e já é apontada por especialistas e autoridades como uma grave epidemia social. Os dados mais recentes revelam um cenário alarmante: milhares de mulheres seguem sendo vítimas de agressões físicas, psicológicas, sexuais e, em casos extremos, do feminicídio — crime motivado pelo fato de a vítima ser mulher.


Em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado em lei, em 2015. O dado representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Na maioria dos casos, os crimes ocorreram dentro de casa e foram praticados por companheiros, ex-companheiros ou pessoas próximas, reforçando que o lar ainda é um dos ambientes mais perigosos para muitas mulheres.
Violência doméstica atinge milhões de brasileiras todos os anos.


Além das mortes, a violência doméstica segue atingindo números assustadores. Em 2024, estimativas apontam que 21,4 milhões de mulheres com 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência. Já em 2025, uma pesquisa do DataSenado revelou que 3,7 milhões de brasileiras foram vítimas de violência doméstica ou familiar.


Essas agressões incluem empurrões, espancamentos, ameaças, humilhações, perseguição, controle emocional, violência sexual e danos patrimoniais. Mesmo quando não deixam marcas visíveis, causam impactos profundos e duradouros na saúde física, emocional e mental das vítimas.
O debate ganhou ainda mais força após uma declaração da ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Cármen Lúcia, que repercutiu amplamente nas redes sociais. Durante um evento público, ela afirmou que:


“Não há democracia em um país onde mulheres vivem sob medo, discriminação e violência.”


Segundo a ministra, a violência contra a mulher não é um problema individual ou doméstico, mas uma ferida coletiva, que compromete a democracia, a justiça social e o direito das mulheres de ocuparem espaços na política, no mercado de trabalho e na vida pública. A fala foi compartilhada milhares de vezes e reforçou o apelo por ações mais firmes do poder público.


Violência vai além da agressão física e muitas vezes é silenciosa


Os dados mostram que a violência contra a mulher se manifesta de diversas formas:


✔️Violência física: empurrões, socos, chutes e espancamentos;
✔️Violência psicológica: ameaças, humilhações, chantagens e controle da vida da vítima;
✔️Violência sexual: estupro, assédio e coerção;
✔️Violência moral e patrimonial: difamação, destruição de bens e retenção de recursos;
✔️Violência política: tentativas de silenciar, intimidar ou afastar mulheres da vida pública.
Especialistas alertam que grande parte dessas violências acontece de forma contínua e silenciosa, dificultando a denúncia e o rompimento do ciclo de agressões.


Estupros batem recorde e escancaram a vulnerabilidade feminina


Em 2024, o Brasil registrou mais de 87 mil estupros, o maior número dos últimos cinco anos — uma média de nove vítimas por hora. O perfil predominante das vítimas inclui mulheres negras, com baixa escolaridade e baixa renda. Em muitos casos, as agressões acontecem dentro de casa e na presença de crianças, ampliando o impacto social da violência.


Tendência de alta preocupa: violência pode crescer 95% até 2033


Dados preliminares de janeiro a outubro de 2025 apontam para um agravamento do cenário, com 5.582 casos de feminicídio consumado ou tentado. Estudos indicam que, se políticas públicas mais eficazes não forem implementadas, a violência contra a mulher no Brasil pode crescer até 95% até 2033.
As denúncias ao Ligue 180 aumentaram 33% em 2025, o que pode refletir tanto o crescimento dos casos quanto uma maior conscientização das mulheres sobre seus direitos e canais de proteção.
Machismo, misoginia e desigualdade sustentam a epidemia
Especialistas apontam que essa epidemia é sustentada por fatores estruturais, como o machismo, a misoginia, a pobreza, a baixa escolaridade e a falta de acesso a serviços básicos de saúde, assistência social e proteção. A disseminação de discursos de ódio e conteúdos misóginos nas redes sociais também contribui para a naturalização da violência.


Enfrentar a violência é dever do Estado e da sociedade


Apesar de avanços importantes, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, os números mostram que a legislação, sozinha, não é suficiente. O enfrentamento da violência contra a mulher exige prevenção, educação, acolhimento das vítimas, fortalecimento da rede de proteção e punição efetiva dos agressores.


Autoridades, movimentos sociais e instituições reforçam que denunciar salva vidas. O combate a essa epidemia passa pelo compromisso do Estado, mas também pela conscientização da sociedade de que nenhuma forma de violência deve ser tolerada.
📞 Em casos de violência, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 funciona 24 horas por dia, gratuitamente, em todo o Brasil.