Psicólogo Manoel Neto morre após relatar episódio de racismo no Carnaval de Salvador
Caso gera comoção nas redes e reacende debate sobre racismo estrutural e impactos na saúde mental da população negra.
A morte do psicólogo Manoel Neto causou forte comoção nas redes sociais nesta semana. Ele tirou a própria vida após relatar publicamente um episódio de racismo vivido durante o Carnaval de Salvador, em um camarote onde estava como cliente pagante.
Em um desabafo publicado em seu perfil, Manoel contou que foi impedido de circular livremente no espaço, mesmo após solicitar passagem de forma educada. Segundo ele, a situação só foi resolvida quando precisou elevar o tom de voz e reagir com firmeza. A experiência o levou a refletir sobre como a cordialidade de um homem negro, muitas vezes, não é respeitada.
“Eles respeitam nossa raiva; todo o resto é desumanidade”, escreveu.

O texto terminou com a frase que repercutiu amplamente: “O Carnaval foi lindo, foi mágico. Mas a felicidade do negro é quase”.
No relato, o psicólogo também criticou o que chamou de “pacto narcísico da branquitude”, apontando a naturalização do desrespeito e da desumanização de pessoas negras, independentemente de sua formação, posição social ou conquistas profissionais.
O caso reacendeu discussões sobre racismo estrutural, violência simbólica e os impactos profundos dessas experiências na saúde mental da população negra.
Racismo e saúde mental: uma ferida coletiva
Especialistas alertam que o racismo não se limita a agressões explícitas. Ele também se manifesta em constrangimentos cotidianos, exclusões veladas e questionamentos constantes de pertencimento — situações que, acumuladas ao longo da vida, podem gerar sofrimento psíquico intenso.
Pesquisas na área da psicologia e da saúde pública indicam que pessoas negras estão mais expostas a fatores de estresse crônico associados à discriminação racial. Esse estresse pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e sensação de não pertencimento.
A chamada “violência simbólica” — quando o indivíduo é tratado como suspeito, invisibilizado ou deslegitimado — pode ter efeitos devastadores, especialmente quando ocorre em espaços de lazer, trabalho ou prestígio social.
A população negra na Bahia e no Brasil
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Bahia é o estado com maior proporção de população negra do país. Aproximadamente 80% dos baianos se autodeclaram pretos ou pardos.
No Brasil, mais de 56% da população se identifica como preta ou parda, o que faz do país a maior população negra fora do continente africano. Apesar disso, os indicadores sociais ainda revelam desigualdades profundas em renda, acesso à educação, oportunidades de trabalho e exposição à violência.
O caso de Manoel Neto reforça a urgência de enfrentar o racismo estrutural não apenas como uma questão social, mas também como uma questão de saúde pública.
Um alerta necessário
A comoção gerada pela morte do psicólogo também chama atenção para a importância do cuidado com a saúde mental, especialmente entre pessoas que enfrentam situações recorrentes de discriminação.
É fundamental fortalecer redes de apoio, ampliar o acesso a atendimento psicológico e promover políticas públicas que combatam o racismo em todas as suas formas.
Se você estiver passando por um momento difícil ou sentir que precisa conversar com alguém, não enfrente isso sozinho(a).
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