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Por que o petróleo venezuelano é estratégico para os Estados Unidos

O tema voltou ao centro do debate internacional nos últimos dias diante da captura do presidente da Venezuela Nicolas Maduro.

A importância da Venezuela para os EUA está enraizada principalmente em suas reservas de petróleo, que são as maiores do mundo — cerca de 303 bilhões de barris comprovados, ou aproximadamente 17 % das reservas globais. 

Por que isso importa para os EUA?


• Reserva enorme: mesmo com a produção muito reduzida, essas reservas são um ativo estratégico que poderia suprir grandes volumes de petróleo no futuro.
• Refinarias adaptadas: os EUA possuem refinarias na Costa do Golfo que são especialmente capazes de processar o tipo de crude venezuelano (pesado e com alto teor de enxofre).
• Geopolítica de energia: controlar ou influenciar esse petróleo significa reduzir a dependência de rivais como China e Rússia, que têm presença histórica na Venezuela.

Durante décadas, essas refinarias processaram petróleo da Venezuela de forma eficiente e barata, graças à proximidade geográfica e à infraestrutura integrada entre os dois países. Com as sanções, os EUA tiveram de buscar fornecedores alternativos. Ou seja, o petróleo venezuelano se enquadra melhor no parque de refino americano do que o petróleo leve produzido internamente pelos EUA.

A Venezuela concentra mais de 300 bilhões de barris de petróleo em reservas comprovadas, superando Arábia Saudita, Irã e Canadá, fazendo do país a maiorreserva petrolífera do mundo, ainda que hoje produza muito abaixo do seu potencial.

Apesar disso, a produção venezuelana caiu vertiginosamente nas últimas décadas, de ~3 milhões de barris/dia para menos de ~900 mil bpd, devido a sanções, baixa manutenção e fuga de investimentos. 

A escalada da crise: sanções, pressão e incursões

Antes da operação militar, a relação entre Washington e Caracas já estava extremamente tensa:
• Ao longo de 2025, os EUA aumentaram sanções e pressões contra o governo de Maduro, acusando-o de narcotráfico e terrorismo. 
• Navios de guerra americanos foram posicionados na região e recompensas por informações que levassem à captura de Maduro chegaram a dezenas de milhões de dólares. 

Esse contexto preparou o terreno para o evento dramático do início de janeiro de 2026.

Invasão americana e captura de Nicolás Maduro

No fim de semana passado, forças especiais dos EUA realizaram uma operação surpresa em Caracas, que resultou na captura de Nicolás Maduro e sua esposa, sob alegações de narcotráfico e terrorismo — acusações que Maduro nega vigorosamente. 

O presidente americano Donald Trump anunciou que pretende administrar temporariamente a Venezuela, ao mesmo tempo em que sinalizou que grandes empresas petrolíferas dos EUA seriam convidadas a reconstruir e explorar o setor de petróleo venezuelano. 

Motivações declaradas por Washington
• Trump afirma que a ação visava combater crime e narcotráfico e restaurar ordem democrática. 
• Críticos apontam que o petróleo foi um fator central — Trump repetidamente mencionou os recursos valiosos que os EUA poderiam aproveitar. 

Reações internacionais

A operação provocou forte condenação de vários países e acusações de violação do direito internacional. 

Consequências econômicas imediatas

Mercados de energia reagiram rapidamente:
• Ações de empresas de petróleo e defesa americanas subiram fortemente após a notícia. 
• Entretanto, os preços globais do petróleo se mantiveram relativamente estáveis ou até caíram, porque o mercado já enfrenta oversupply (excesso de oferta). 

Isso mostra que, no curto prazo, a captura de Maduro não garantiu automaticamente mais produção de petróleo venezuelano, sobretudo porque a infraestrutura do país está deteriorada. 

Situação jurídica e atual

Após a captura, Nicolás Maduro foi apresentado em tribunal federal em Nova York, onde pleiteou inocência nas acusações de tráfico de drogas e crimes relacionados. Ele sustenta que foi uma abdução ilegal e uma violação da soberania venezuelana.

Enquanto isso:
• A vice-presidente interina da Venezuela pede sua libertação imediata e contesta a legitimidade da operação.
• No Conselho de Segurança da ONU, muitos países condenaram o ataque como uma agressão militar e um perigoso precedente.
• Nos EUA, líderes políticos debatem se a ação foi legítima e se o Congresso foi adequadamente consultado.

Cenário global e implicações geopolíticas

Para a América Latina, a crise reacendeu debates sobre soberania, influência externa e integração regional.

Para as grandes potências (China, Rússia, UE), a ação americana representa um redesenho de prioridades estratégicas no hemisfério ocidental, com possíveis impactos duradouros nas alianças e nas cadeias de energia. 

No plano energético mundial, embora a Venezuela tenha reservas gigantes, a sua produção futura dependerá de investimentos massivos, estabilidade política e tempo — nada que possa ser resolvido rapidamente. Ou seja, o petróleo venezuelano não resolve crises energéticas no curto prazo, mas representa uma aposta estratégica de longo prazo para EUA.

O interesse dos EUA no petróleo venezuelano se combina com uma rivalidade geopolítica mais ampla, preocupações de segurança regional e interesses econômicos corporativos. A recente invasão e captura de Maduro representam um dos episódios mais dramáticos dessa disputa em décadas, cujas consequências ainda estão se desenrolando — tanto nos tribunais quanto nos mercados e nas relações internacionais.