TCC de estudante de Direito viraliza nas redes e provoca debate sobre violência contra a mulher no Agosto Lilás
Trabalho intitulado “Antes Elize do que Eliza” analisa como a sociedade e a mídia julgaram duas mulheres envolvidas em casos criminais de grande repercussão.
O título de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) defendido pela estudante de Direito Clara Souza, de 22 anos, ganhou as redes sociais e transformou a defesa de uma monografia em um debate que ultrapassou o ambiente acadêmico. Intitulada “Antes Elize do que Eliza”, a pesquisa provocou reações diversas, entre críticas e elogios, justamente pela força e pela polêmica da frase escolhida para apresentar o estudo.
A repercussão ocorre em meio ao Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, o que acabou ampliando o debate sobre a forma como casos envolvendo mulheres são tratados pela sociedade, pela imprensa e pelo sistema de Justiça.
Segundo Clara, o título não representa uma defesa ou apologia ao crime cometido por Elize Matsunaga, mas uma provocação acadêmica para discutir a maneira como duas mulheres foram retratadas e julgadas socialmente em contextos completamente diferentes.
“Eu sabia que era um tema muito polêmico, mas não imaginei que fosse furar a bolha e tomar essa repercussão toda”, afirmou a estudante ao Metrópoles.
A frase faz referência a Elize Matsunaga, condenada pelo assassinato e esquartejamento do marido, Marcos Matsunaga, em 2012, e a Eliza Samudio, assassinada em 2010 em um crime pelo qual o goleiro Bruno Fernandes foi condenado por participação.
Clara ressalta, entretanto, que a pesquisa não pretende comparar os crimes cometidos ou estabelecer qualquer equivalência entre eles. O foco, segundo a estudante, está na maneira como a sociedade e a mídia construíram narrativas sobre as duas mulheres.
“Os crimes são completamente diferentes, mas a forma como elas foram julgadas foi muito semelhante”, explicou. Para ela, a exposição dos casos ultrapassou, em diversos momentos, a discussão jurídica e passou a envolver julgamentos sobre a vida pessoal e a conduta das mulheres.
Da experiência no atendimento jurídico à reflexão sobre a violência contra a mulher
A estudante conta que a escolha do tema ganhou força depois que começou a trabalhar com atendimento jurídico a mulheres vítimas de violência. A experiência, segundo ela, permitiu observar situações que antes não eram percebidas da mesma maneira.
“Eu sempre acompanhei casos criminais, mas foi quando comecei a trabalhar diretamente com violência contra a mulher que percebi nuances nesses dois casos que antes não eram tão claras”, relatou.
Veja aqui vídeo da estudante explicado a escolha do tema!
Para Clara, a repercussão do trabalho também demonstra como determinadas expressões podem gerar interpretações imediatas quando retiradas de seu contexto. Ela afirma ter ficado surpresa ao perceber que muitas pessoas reagiram apenas ao título, sem conhecer a pesquisa completa.
“As pessoas acreditavam, vendo só a frase inicial, que eu estava fazendo uma apologia ao crime praticado pela Elize Matsunaga. Mas, quando você lê o título completo e o subtítulo, é possível compreender o que eu trago na pesquisa”, afirmou.
Apesar da polêmica, a estudante avalia positivamente a dimensão alcançada pelo trabalho. A imagem de sua defesa foi compartilhada por perfis no Instagram, TikTok e X, fazendo com que o TCC chegasse a pessoas de diferentes partes do país.
“Fico muito feliz que muita gente leu a pesquisa, entendeu a minha proposta e alcançou muitas mulheres pelo Brasil”, declarou.
A viralização do trabalho, justamente durante o Agosto Lilás, coloca novamente em evidência uma discussão que vai além dos casos criminais citados: a necessidade de refletir sobre a violência contra a mulher, sobre a responsabilização dos agressores e, também, sobre a tendência de transformar a vida, o comportamento e a história das vítimas em objeto de julgamento.
Mais do que a polêmica provocada por uma frase, o trabalho de Clara Souza abre espaço para discutir como mulheres envolvidas em casos de violência são representadas, interpretadas e julgadas — uma reflexão que ganha ainda mais relevância durante o mês dedicado ao combate à violência contra a mulher.

