Mulheres evangélicas realizam caminhada histórica contra a violência em Salvador
Mobilização reúne fiéis de diferentes denominações e reforça papel das comunidades religiosas no enfrentamento à violência de gênero.Escalada do feminicídio no Brasil em 2026 acende alerta nacional.

O Brasil segue enfrentando um grave cenário de violência contra as mulheres em 2026. Dados oficiais divulgados por órgãos de segurança pública e monitoramentos nacionais apontam que os casos de feminicídio — assassinatos de mulheres motivados por violência doméstica ou por menosprezo à condição feminina — continuam em níveis alarmantes no país nos primeiros meses do ano.

De acordo com levantamentos recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, baseados em registros das secretarias estaduais de segurança, o país manteve nos últimos anos uma média superior a 1.400 feminicídios anuais, o que significa, em média, uma mulher assassinada a cada seis horas no Brasil. Em 2024, por exemplo, foram registrados cerca de 1.467 feminicídios, número que permanece como referência preocupante para os primeiros balanços de 2026, que indicam a continuidade de casos em diversos estados.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, os registros preliminares do primeiro trimestre deste ano mostram que a violência doméstica segue sendo o principal contexto desses crimes, frequentemente cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Além das mortes, milhares de ocorrências de ameaças, agressões físicas, violência psicológica e perseguição continuam sendo registradas em todo o país.
A legislação brasileira classifica o feminicídio como crime hediondo desde 2015, quando a Lei do Feminicídio foi incorporada à Lei Maria da Penha, ampliando o reconhecimento da violência de gênero como problema estrutural e estabelecendo penas mais severas para os responsáveis.
Mesmo com avanços legais e campanhas de conscientização, especialistas alertam que fatores como dependência econômica, medo de denunciar, ausência de rede de apoio e a naturalização da violência ainda contribuem para a permanência do problema.

Caminhada de mulheres evangélicas ocupa ruas de Salvador
Em meio a esse cenário preocupante, um ato público marcado por fé, mobilização social e defesa da vida ocorreu na manhã deste sábado (7), em Salvador. A Primeira Caminhada de Mulheres Evangélicas contra o Feminicídio reuniu fiéis de diferentes denominações religiosas que decidiram transformar indignação em presença nas ruas para denunciar a violência de gênero.
A mobilização teve concentração no Campo Grande e seguiu em caminhada até a Praça da Piedade, reunindo mulheres, lideranças religiosas, ativistas e integrantes de movimentos sociais comprometidos com a defesa da vida e da dignidade feminina.
Organizado pelo grupo Mulheres Evangélicas contra o Feminicídio, o ato nasceu do entendimento de que o enfrentamento à violência precisa ocorrer também dentro das comunidades de fé. A iniciativa foi idealizada pela pastora e ativista Gicélia Cruz, que defende a necessidade de romper com discursos religiosos que historicamente incentivaram mulheres a suportar agressões em nome da manutenção da família.

Segundo ela, interpretações equivocadas da fé contribuíram durante anos para silenciar vítimas, ao associar sofrimento feminino à virtude ou submissão. A caminhada, portanto, busca afirmar que a espiritualidade cristã não pode ser usada para justificar violência.
A mobilização também contou com a participação da reverenda Bianca Daébs, que defende que igrejas abordem o tema de forma direta em púlpitos, estudos bíblicos e espaços de formação, reconhecendo a violência doméstica simultaneamente como crime e como pecado.
Mobilização religiosa e poder público
No âmbito do poder público municipal, a secretária de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude de Salvador, Fernanda Lordelo, ressaltou que a violência doméstica atravessa todas as classes sociais e também está presente dentro de comunidades religiosas.
Veja vídeo da caminhada aqui!
Segundo a gestora, a prefeitura tem buscado ampliar o diálogo com lideranças religiosas por meio do projeto Alerta Salvador, que orienta igrejas e organizações comunitárias a identificar sinais de abuso e divulgar canais de denúncia.
A organização da caminhada também reúne lideranças religiosas, psicólogas e coletivos como o Coletivo Mupps, o Empodere Sua Irmã, o Cuxi, a Igreja Batista Nazareth, a CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço e a EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero.
Entre os objetivos do movimento está a construção de uma rede permanente de acolhimento, com palestras, rodas de conversa, encontros familiares e a inclusão de homens no debate sobre transformação de mentalidades.
Violência também atinge mulheres religiosas
A mobilização também foi motivada por dados preocupantes sobre a violência contra mulheres que frequentam igrejas. A pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, divulgada em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, revelou que 42,7% das mulheres evangélicas e 35,1% das católicas afirmaram já ter sofrido agressões praticadas por companheiros ou ex-companheiros.
Os dados evidenciam que a violência doméstica atravessa diferentes contextos sociais, culturais e religiosos, reforçando a necessidade de ações integradas entre Estado, sociedade civil e comunidades de fé.
Fé e mobilização social pela vida das mulheres
Para as organizadoras da caminhada, a mobilização representa um marco simbólico e político no enfrentamento à violência de gênero dentro do universo religioso. O objetivo agora é ampliar o movimento e estimular igrejas em todo o país a se posicionarem de forma clara contra qualquer forma de agressão.
A expectativa é que iniciativas como essa fortaleçam redes de proteção e ajudem a romper o silêncio que ainda envolve muitas vítimas.
Mais do que um ato religioso, a caminhada realizada em Salvador reafirma que defender a vida das mulheres também é um compromisso social, ético e espiritual — e que a fé pode ser uma poderosa aliada na luta contra o feminicídio no Brasil.

